segunda-feira, 1 de junho de 2009

Aurora Maldita

A aurora me resseca os olhos
Me rói o coração falido
Me põe as mãos no peito, angústia
Ressoa em mim como um rugido.

Quando a noite acaba, é preciso ser forte
Lançar-se à espada, mas fugir da morte
Apagar os cigarros e entregar-se ao sono
Acordar como um rei vomitando no trono.

A aurora, dominadora senhora,
Que usa a embriaguez como chicote
P’ra cortar a carne do escravo que implora
Por mais um cigarro e mais um scotch

Talvez um shot, talvez a vida
Talvez o som de um violão sem cordas
Talvez a minha musa querida
Que vai embora quando o sol me acorda

O sol me irrita, aurora maldita
Que obriga os bêbados a dormitar
Quero fazer dos sonhos a saída
Com corpos nus sem dó quero sonhar.

Maldita aurora, que traz o dia
Que acaba a orgia dos que não têm fé
Maldita aurora, que repudia
Os coquetéis de menta e os canapés

Quero acordar à noite suado
E excitado por um sonho bom
Quero perder o sêmen na cueca,
Beber meu gim e exercer meu dom.

Estou cansado da monotonia
E da rotina que em vão me atrofia
Eu quero a sorte da morte prematura,
Quero a imagem póstuma que perdura.

Misturem minhas cinzas com as de um cigarro
Meu sangue restante num copo de gim
Minha última saliva, a um escarro
Elevem meu falo ao estopim
Usem o que falo, lembrem-se de mim

Não como um monarca que marca o que manda
Mas como o bobo que deixa a emoção
Que a noite venha e seja ciranda
No corpo e na bílis no ralo, no chão.

Níkolas Sansão

2 comentários:

  1. Oi, Nikolas, vc é talentoso. Que achado vc recuperar a rima, métrica, tudo com um frescor impressionante!

    Parabéns! Vou indicar seus poemas no meu blog.

    Abs do Lúcio Jr.

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  2. Oi, Nikolas. Reproduzi esse poema em meu blog.

    Que tal se fizéssemos uma tradução a quatro mãos do Strange Tribe? Até agora tenho esperado para comprar em português, mas parece que não vai rolar.

    Abs do Lúcio Jr.

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